Fascismo, Antifascismo e Reformismo

Depois da Primeira Guerra Mundial surgiram os primeiros regimes definidos hoje como fascistas mas, também, os primeiros movimentos antifascistas.

Com a morte recente de George Floyd, nos Estados-Unidos, os ataques terroristas de grupos neonazis/neofascistas no mundo (e em Portugal com o caso dos 37 arguidos da Hammerskin) as palavras fascismo e antifascismo voltaram a ser assunto de debate na população mundial.

Mas afinal, o que é o fascismo ? O que é o antifascismo?

O que têm a ver os reformistas com esta luta ?

Porto, 6 de Junho de 2020

artigo de Jonathan Ferreira Da Costa

06.07.2020

Nota : Este artigo é uma analíse e uma tomada de posição individual, não podendo ser levado como posicionamento das organizações pelas quais milito.

Os termos “Fascismo” e “Antifascismo” voltaram a ser discutidos em Portugal desde de 2016-2017 com o ressurgimento do movimento antifascista. A conferência internacional neonazi organizada em 2019 em Lisboa e o recente caso dos 37 arguidos da “Portugal Hammerskin” por crimes de ódio, violência, roubos, tráfico e tentativas de homicídio, voltaram a colocar em evidência o crescimento da extrema-direita em Portugal, como no resto do Mundo mas, também, permitiu que a população portuguesa voltasse a descobrir o movimento “Antifa”, relacionado com os ativistas antifascistas organizados em todo o território.

O tema também ressurgiu no exterior. Nos Estados-Unidos, a morte de George Floyd, homem negro assassinado pela polícia, levou milhares de pessoas às ruas e teve um impacto a nível internacional, com vários protestos organizados sobre o tema do anti-racismo e da violência das instituições infiltradas pela extrema-direita. Na Alemanha, os atentados realizados pela extrema-direita contra populações minoritárias ou ainda responsáveis políticos, permitiu evidenciar uma forte infiltração da extrema-direita em vários setores da sociedade alemã, nomeadamente no exército e nas forças policiais, como nos foi noticiado esta semana com a dissolução de uma unidade das forças especiais infiltrada por ativistas radicais ligados a organizações neonazis.

Entre preconceitos sobre o movimento antifascista e a fachada do identitarismo e nacionalismo, atrás do qual se escondem os fascistas modernos, é importante esclarecer o que é afinal o fascismo, onde surgiu, o que defende mas, também, o que é o antifascismo e qual o impacto do reformismo nesta luta que opõe antifascistas a fascistas.

o que é o Fascismo ?

O fascismo é um movimento que nasceu na Europa após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, quando países como a Itália ou ainda a Alemanha estavam devastados pela guerra. O movimento surgiu com grupos ultranacionalistas que defendem o amor incondicional ao conceito de Nação, defendendo-a com violência e exaltando os valores tradicionais e religiosos. O objetivo é o de restabelecer a ordem, usando a força num Estado totalitário, que se define pela perseguição de qualquer opositor político e a direção de um líder visto como um herói que se sacrifica pelo país.

Uma das características dos regimes fascistas é o culto da violência e do uso de armas para resolver os conflitos políticos, sendo evidente um ódio profundo pela democracia e a ciência. Negam vários momentos da História, que tentam redefinir, e vêem a ciência como o progresso indesejado, em contradição com a religião e, por isso, combatem-na veemente.

Outra característica marcante é a mudança do significado de símbolos patriotas. No caso da Itália, por exemplo, Mussolini era cercado de homens armados e uniformizados, ao serviço da Ordem e da Lei. Bandeiras e outros símbolos foram apropriados por este grupo e ser seu apoiante passou a ser o significado de “patriota”.

Mas o fascismo não teve apenas lugar na Itália. Outros governantes inspiram-se neste modelo, como foi o caso da Alemanha, com o Adolf Hitler e o nazismo, em Portugal com o António Salazar e o salazarismo, ou ainda com o General Franco na Espanha e o franquismo.

a origem dos movimentos fascistas

Em resposta às políticas autoritárias, violentas e anti-progressistas do fascismo, surge o movimento assumido como antifascista. Um dos primeiros grupos antifascistas será, sem dúvida, o grupo italiano “Arditi Del Populo”, que surgiu em resposta à tática legalista, e não violenta, adotada pelo Partido Socialista Italiano e o Partido Comunista Italiano. Este método foi de facto aplicado pelos sindicatos e organizações ligadas a estes dois partidos e formalizado pelo pacto de 3 de Agosto de 1921, assinado com o Partido Fascista Italiano. Na mesma altura, era criada a Organização pela Vigilância e Repressão do Antifascismo, a polícia secreta do regime fascista italiano. 

Enquanto isso, na Alemanha, o KPD (Partido Comunista Alemão) priorizava a sua luta contra a Social-Democracia (o SPD) usando, se necessário, alianças com o NSDAP (partido nazista) para aprovar moções de censura contra o governo social-democrata ou organizando greves conjuntas. Prioridade que perdurou entre os anos 20 e 30, acabando em 1932 quando o KPD, dos quais vários militantes eram regularmente agredidos pelos militantes do NSDAP, decidiu organizar uma conferência, no dia 25 de Maio do mesmo ano, que marcou a criação da primeira “Ação Antifascista”, na qual colaboraram organizações do KPD e do SPD, em oposição ao NSDAP ( partido nazista ). Foi, aliás, nesta conferência que surgiu a primeira versão do logotipo atualmente usado pelos antifascistas em todo o mundo, com duas bandeiras, mas com as duas bandeiras de cor vermelha.

durante os anos 80,

surge uma nova vaga de organizações antifascistas com a criação da rede descentralizada inglesa do “Anti-Fascist Action”, ou ainda da rede “No Pasarán”, criada na França. Esta nova vaga diferencia-se do antifascismo dos anos vinte e trinta pela sua independência das estruturas partidárias e da incorporação de organizações anarquistas autónomas.

O próprio modelo organizativo é alterado, passando a ser descentralizado, organizado de forma horizontal por coletivos locais e autônomos, que colaboram entre si em várias ocasiões, mas sem direção internacional. Estes grupos também se diferenciam dos seus antecessores pela recusa de se unir, seja com a direita, seja com a esquerda parlamentar, vista como reformista, em parte responsável pelo crescimento da extrema-direita e potencialmente perigosa para a luta e o modelo organizativo do movimento antifascista.

De facto, as políticas reformistas não permitem uma mudança suficiente perante as exigências da classe trabalhadora, acabando por alimentar as frustrações da classe mas, também, o sentimento de traição que leva algumas destas pessoas a procurarem outra alternativa que pode ser a extrema-direita. Também é conhecido que os movimentos reformistas são adeptos da apropriação e controle dos movimentos sociais, que lhes permite garantir uma parte do seu eleitorado pela partilha do seu programa nestes movimentos ou pela visibilidade que estes lhe dão. Esta diferença da “nova geração antifascista” leva à alteração do próprio logotipo, que passa a ser composto por uma bandeira preta e uma vermelha, significando a união entre anarquistas e socialistas na luta antifascista.

o movimento antifascista hoje

A situação de crescimento da extrema-direita nos últimos anos, um pouco por todo o mundo, levou a um novo ressurgimento do movimento antifascista em vários países do mundo.

Mantendo um formato próximo das organizações dos anos 90, os chamados “Antifas” voltaram organizar-se e mobilizar em várias ações que decorreram em oposição direta às manifestações de grupos neonazis/identitários ou à presença de elementos da extrema-direita em conferências partidárias, levando de novo a luta antifascista para a rua e criando, em várias ocasiões, confrontos violentos entre neonazis e antifascistas. Esta violência, no entanto, surge apenas em defesa dos ataques de militantes neonazis contra manifestações que defendem pautas democráticas e dos Direitos Humanos, ou até as próprias manifestações antifascistas.

em Portugal, fascistas não passarão

o movimento antifascista também acabou por ressurgir, ainda que um pouco mais tarde. Assim, durante o ano de 2016, assistimos ao aumento da presença e da reorganização de grupos neonazis/identitários como a “Nova Ordem Social”, o “Escudo Identitário” ou ainda a “Hammerskin” e a “Blood and Honour”. Movimentos que se desenvolveram sem grande obstáculo perante a conivência das autoridades e dos nossos responsáveis políticos, convencidos de que o fenômeno seria residual e portanto, iria desaparecer de si mesmo. Ao mesmo tempo assistimos também à presença de elementos antifascistas, novamente estabelecidos em Portugal, que trouxeram com eles a experiência da luta antifascista, vivenciada no estrangeiro, e ajudaram na mobilização de ativistas antifascistas que se encontravam dispersos ou pouco organizados. Ao mesmo tempo, começaram a surgir vários outros movimentos sociais envolvidas nas lutas pelo feminismo, a causa LGBT ou ainda a luta ambiental, que partilham da ideologia antifascista.

Foram criados novos núcleos antifascistas que mantiveram relações entre si, de forma a tentar coordenar a luta em Portugal, mas também com organizações estrangeiras localizadas em Espanha (especialmente na Galiza) e na França, e ainda noutros pontos do mundo, através da sua adesão à rede “Alternative International Movement” (AIM).

Alternative International Movement 

A AIM, sendo uma rede internacional de contra-cultura antifascista ativa em 32 países espalhados pelo mundo e que tem por objetivo ocupar o espaço cultural para impedir a apropriação e recrutamento da extrema-direita, mas também apoiar as várias lutas sociais que ocorrem nos países onde estão estabelecidas as suas secções, a adesão a esta estrutura deu a oportunidade ao movimento de perceber a dinâmica desta luta noutros países, aproveitando as diversas experiências e pontos de vista para criar e implementar o seu próprio modelo organizativo e os seus métodos de ação.

A partir de 2010 observamos uma generalização desta forma de “internacionalização” da luta nos diferentes coletivos antifascistas espalhados pelo mundo, através da adesão à AIM, ou a outras estruturas internacionais, como resposta às ligações que a própria extrema-direita criou e reforçou nos últimos anos. Esta tática de internacionalização das relações entre coletivos antifascistas acabou por levar a uma nova forma de organização destes coletivos, que foge um pouco da estrutura que o movimento adotou nos anos 90. Pode-se observar na maioria dos coletivos atuais um modelo híbrido entre a independência partidária e a recusa de alianças com o reformismo da esquerda parlamentar, própria do movimento nos anos 90, bem como a estruturação das organizações e a sua centralização através de coordenações nacionais ou internacionais, própria do movimento inicial dos anos 20-30.

a luta do movimento antifascista contemporâneo em Portugal

O ressurgimento do movimento antifascista em Portugal e o reforço da sua atividade e presença levou à criação, em 2018, de uma “Frente Unitária Antifascista” (FUA), inicialmente composta por organizações de esquerda, entre as quais organizações anti-racistas, feministas, LGBT, associações pelo direito à habitação, coletivos antifascistas, partidos políticos e sindicatos. Uma frente criada no final de uma conferência sobre a extrema-direita organizada em Braga que revelou a presença, a atividade e a forma como se organizavam vários grupos de extrema-direita em Portugal, na qual também foi debatida a questão do regresso possível do fascismo no Brasil, com a eleição do Bolsonaro, e que levou as várias organizações e pessoas presentes a exprimir a vontade de unirem esforços na luta contra a extrema-direita em Portugal e no mundo.

A criação desta frente permitiu também a organização de várias ações, nas quais estiveram envolvidas várias organizações e pessoas que tinham aderido a FUA, ou que a apoiavam. Estas ações foram várias e diversificadas, desde a oposição direta, como as duas contra-manifestações organizadas em Braga em resposta a uma concentração do PNR, e da tentativa de criação de um núcleo do “Escudo Identitário”, ou ainda a contra-manifestação organizada em Coimbra em resposta ao protesto do PNR, contra a vinda de um ativista LGBT brasileiro para uma conferência na Universidade, de tomada de posição como em Agosto de 2019 com a manifestação organizada em resposta a uma conferência neonazi internacional em Lisboa, ou ainda na série de manifestações anti-racistas e contra a violência policial que a Frente Unitária Antifascista co-organizou ou na qual participou, em resposta aos casos dos jovens afrodescendentes agredidos na esquadra da PSP na Cova da Moura, da violência policial nas intervenções no bairro da jamaica e durante a detenção da Cláudia Simões, do assassinato do jovem estudante cabo verdiano Giovani em Bragança, ou ainda em resposta a agressão e insultos racistas sofridos pela Nicol no Porto por um agente de segurança de transportes públicos.

feminismo-antifascista

a frente unitária Antifascista

não foi apenas criada para responder aos ataques da extrema-direita e as consequências do seu crescimento e atividade. Também foi criada para poder consciencializar o povo atravès de conferências e debates, que foram organizados sobre várias questões como a luta sindical, os direitos LGBT, a luta feminista ou ainda a luta anti-racista, em colaboração com várias organizações e personalidades reconhecidas destas áreas, levando a que cada vez mais pessoas possam perceber o que é o fascismo, o antifascismo e as diferentes lutas envolvidas no confronto entre estas duas forças.

Também foram realizadas várias ações de cariz social, como a angariação de fundos e ajuda na remodelação de um local pertencente a uma associação sócio-cultural que permitiu a sua reabertura, a recolha de bens e alimentos para pessoas em situação precária e sem-abrigos, ou ainda o apoio nas várias lutas com a qual a FUA esteve alinhada.

Vários eventos culturais foram também organizados com o objetivo de poder ocupar este espaço no qual a extrema-direita se tenta infiltrar para ganhar novos adeptos. Eventos como o festival Rock Contra o Racismo organizado em Braga, a projeção de vários documentários sobre as revoluções em curso no mundo ou ainda sobre a situação no bairro da Exarcheia na Grécia, que contou com a participação do realizador do documentário, o Yannis Youlountas, que permitiram oferecer uma alternativa à cultura mainstream com a disponibilização de uma agenda cultural revolucionária e antifascista, aberta a todos e todas, inclusivo as populações mais precárias que acabam por não ter acesso a cultura por causa dos custos de acesso.

Durante estes últimos 4 anos que marcaram o ressurgimento do movimento antifascista em Portugal, comprovou-se que este movimento era o contrário do que ditam alguns preconceitos segundo os quais os antifas seriam gente violenta, interessada apenas pela destruição da propriedade privada e conflitos físicos com neonazis. um grupo alarmista sem nada mais para fazer e focado num hipotético perigo imaginário ou marginal ou ainda um grupo de comunistas dirigidos pelo BE ou pelo PCP quando, na verdade, o movimento é composto por elementos de várias ideologias e não é controlado por qualquer partido político.

os conflitos entre o movimento antifascista e o setor reformista em Portugal

De facto, o movimento antifascista em Portugal tem vindo a ser o protagonista dessa luta e a assumir a primeira linha de combate contra a extrema-direita e as organizações neonazis que tem vindo a se desenvolver em todo o território. Mas infelizmente, os ataques contra ele não tem vindo apenas da extrema-direita, como era de esperar, mas sim de uma grande parte do setor reformista português, representado por partidos parlamentares e organizações que lhe são ligadas. O mesmo setor que hoje quer tentar assumir esta luta quando há ainda uns meses atrás, acusava os antifascistas de exagero e de alarmismo quando estes denunciavam a extrema-direita e as suas organizações. O mesmo setor que se lembrou de ser antifascista apenas quando a atenção mediática começou a virar-se para esta luta e que irão esquecer-se deste antifascismo quando a atenção mediática desviar para outro assunto.

A verdade é que vários são os elementos que incomodam este setor, levando-o a tentar atacar o movimento antifascista ou se apropriar dele como temos vindo a assistir, sobretudo nos últimos meses. Demasiado revolucionário, demasiado independente, demasiado antifascista…

De facto, o movimento antifascista é um movimento independente, que não aceita a instrumentalização partidária com a qual este setor se foi acostumando com os anos, causando assim um inconforto para quem tem por hábito de controlar as movimentações das massas nas ruas. Bem que aberto à colaboração com o setor reformista em prol da unidade de ação na luta, ficou claro de que o movimento antifascista se recusava a ceder  as políticas deste setor e continuaria firme nas suas críticas destas políticas que considera como uma das razões do crescimento da extrema-direita em Portugal. De facto, os reformistas sempre se esforçaram a tentar silenciar tudo o que era relacionado com a extrema-direita, dando um espaço para este se desenvolver sem qualquer obstáculo, tendo já garantido o espaço mediático que necessitava, hà bastante tempo.

Um inconforto reforçado pela aproximação de eleições mas, também, do mediatismo que tem havido sobre a questão do antifascismo, metendo a luz do dia a total ausência deste setor na luta e representando desta forma um risco perante o seu eleitorado que pode vir a divergir e afastar-se deste setor. Fenômeno que já se pode ver desde o início do ano, com a adesão de vários militantes deste setor ao movimento antifascista, em clara oposição à política levada por este setor tal como é regularmente observado nas declarações destes mesmos militantes no seio do movimento e das suas organizações. Não será por acaso que durante o processo de construção da manifestação “Resgatar o Futuro”, várias organizações inicialmente envolvidas acabaram por se afastar da plataforma organizativa inicial.

De facto, nas primeiras reuniões foi imposto um manifesto, não deixando qualquer espaço as organizações convidadas a participar, para poderem construir o manifesto em conjunto, acrescentando propostas ou alterando as que não achavam pertinentes. O resultado foi um manifesto muito vago, sem exigências específicas nem nomeação das pessoas visadas pelas exigências e que acabaria por ter menos organizações a subscreverem do que o manifesto alternativo que apareceu a seguir. Este método de funcionamento e o afastamento da grande maioria das organizações convidadas levou a FUA a contactar estas organizações e outras que não tinham sido convidadas, para tentar convencê-las de continuarem mobilizadas, não se retirarem da manifestação e desta forma, criando com este conjunto de organização, um novo manifesto que possibilitou a mobilização destas organizações e a força prevista para estas manifestações.

Foi conseguido atravès de algumas reuniões nas quais ficou decidido todos participarem na manifestação mas, atravès de outro manifesto, reconstruído de forma democrática, ao qual subscrever este conjunto de organizações e outras que os apoiaram. Neste momento já era claro que o setor reformista queria impor a sua linha política, não deixando espaço para que outras organizações que não lhe sejam ligadas, possam complementar o manifesto e arriscar inserirem exigências e críticas ao governo que este setor apoia.

Outro elemento será sem dúvida a presença maioritária de militantes revolucionários neste movimento, que não poupam de críticas às soluções governativas destes últimos anos, que representam um claro apoio a burguesia, de forma mais ou menos assumida. Não será por acaso que nas manifestações dirigidas por este setor, as palavras de ordem marcam-se pela total ausência de críticas e exigências aos últimos governos, indo até a tentativa de silenciar estas críticas e exigências com o fantasma de um hipotético retorno de uma governação de direita. Mas na verdade, seria tão diferente? Não temos vindo a assistir a requisições civis contra trabalhadores em greves e proibições de direitos fundamentais como o direito à resistência por parte de um governo “de esquerda”? Não será também este mesmo governo “de esquerda” que tem vindo a aceitar migalhas para o povo enquanto milhões eram transferidos para bancos e empresas privadas? Não seria este governo “de esquerda” que se deu ao luxo de silenciar uma deputada negra eleita recusando-lhe o direito à intervenção nas comemorações do 25 de Abril? As críticas que o movimento antifascista faz a direção deste setor reformista (e não a sua base militante) tem por objetivo apenas e somente, criar pressão na sua direção para que esta tome consciência da necessidade de priorizar a luta antifascista e não as questões eleitoralistas e divergência programáticas, e que toma também consciência da responsabilidade que tem enquanto no crescimento da extrema-direita pelas suas decisões políticas tomadas nos últimos anos que representam uma traição para a classe trabalhadora que ela abandonou para poder dar o seu apoio a burguesia. 

A primeira reação do setor reformista face ao ressurgimento e crescimento do movimento antifascista foi tentar controlá-lo. Observamos a paralisação de alguns núcleos que tinham surgido nos primeiros anos, fruto da injeção de militantes e quadros deste setor que acabaram por conseguir redigir toda a atividade destes grupos na manutenção de intrigas e guerrinhas ou transformando-os em “clubes de leitura para pseudo-intelectuais”. Felizmente, os locais afectados por esta tentativa de contrôle viram surgir novos coletivos formados por grande parte dos ativistas dos núcleos iniciais mas, com uma vantagem no facto de perceberem o que tinha sido feito e de estarem mais atentos a estas táticas do setor reformista, barrando-lhe a possibilidade de tentar novamente de tomar o controle. Foi então que começaram a usar uma segunda estratégia que perdure até hoje e se traduz em várias tentativas de destruir o movimento antifascista, criando e alimentando divisões ou ainda tentando afastar as massas desta luta.

Este conflito é claramente expresso na postura sectarista e divisionista do setor reformista, que se traduz nos movimentos sociais que controla, com a vontade de compartimentação das diferentes pautas que constituem a luta antifascista atravès de linhas políticas identitárias, a ausência deste setor nas lutas que não dirige e a qual se recusam qualquer apoio, ou ainda os ataques de muito baixo nível lançado contra ativistas do movimento antifascista na tentativa de lhes retirar credibilidade e os afastar das massas e das lutas.

Um dos exemplos mais recentes desta postura será sem dúvida a última manifestação antifascista marcada para o 26 de Junho ( e cancelada apenas um ou dois dias antes usando o Covid-19 como pretexto) por organizações anti-racistas ligadas a este setor, na qual nenhum coletivo antifascista, seja ele aderente ou não da Frente Unitária Antifascista, tem vindo a ser contactado seja para participar na organização seja para participar na própria manifestação.

Um afronto quando sabemos que umas semanas atrás, no âmbito da manifestação resgatar o futuro, as mesmas organizações tinham contactado e pressionado elementos da FUA, durante uma reunião a qual os convidaram, para que este não organizasse a sua manifestação antifascista face a Embaixada dos Estados-Unidos no dia 5 de Junho (não vá o movimento antifascista chatear os amigos imperialistas) para se juntarem a uma coluna anti-racista incorporada a uma manifestação pela qual o manifesto contava com apenas uma frase sobre a questão do anti-racismo.

Manifestação que prometeram apoiar durante a reunião, caso fosse organizada na próxima semana e, como já era de esperar com pessoas ligadas ao setor reformista e de pouca palavra, não o fizeram. Foi ainda nesta reunião que dirigentes destas organizações usavam como argumento que esta manifestação do 5 de Junho, iria retirar protagonismo a coluna anti-racista que ia se manifestar no dia 6, e que deviam ser respeitados os protagonismos de cada luta. Afirmação feita com as seguintes palavras “As lutas anti-racistas devem ser lideradas por movimentos anti-racistas tal como as lutas antifascistas devem ser lideradas por movimentos antifascistas”, por um destes mesmos representantes.

Outro exemplo : a manifestação do dia 6 de Junho, que foi pretexto para a organização “Atravessar a tempestade, semear o futuro”, supostamente “revolucionária” (mas que, na verdade, nasceu por várias razões das quais, a vontade de integrarem o setor reformista na esperança de criarem lá um pólo à esquerda), lançar um ataque ao movimento antifascista, usando alguns dos seus ativistas e elementos da sua direção para partilhar diversas difamações com acusações bastantes sérias, pelas quais nunca  apresentaram provas, com o objetivo de serem destacados pelo setor reformista e aceites.

Um ataque que terá sem dúvida, encontrado as suas motivações também no facto dos antifascistas terem conseguido manter um conjunto de organizações mobilizadas para a manifestação do 6 de Junho, enquanto a plataforma inicial de organização (dirigida pelo setor reformista) os tinha perdido, afastando-os da mobilização e arriscando que estes não participem e retiram força as mobilizações.

O facto é que, bem que as acusações tenham sido retiradas passado uns dias, fruto da pressão exercida por vários ativistas e organizações que exigiram provas dessas acusações, este método foi revelador do nível ao qual o setor reformista está disposto a descer na sua tentativa de destruição do movimento antifascista e afastamento dele das massas que o apoiam. Também ficou claro que neste dia, o setor reformista acabou por ser ultrapassado pela massa popular que se auto-organizou na própria manif, cantando as suas próprias palavras de ordem, juntando-se as colunas anti-racistas e antifascistas no Porto e em Lisboa, deixando a organização reformista isolada na sua versão da manifestação, conivente para com o Governo e sem foco nas pautas anti-racistas e antifascistas

No entanto, quero acreditar que o setor reformista irá perceber com o tempo, que a união é a única solução se queremos um dia vencer a extrema-direita de forma definitiva. E por isso, acho importante o movimento antifascista continuar a enviar convites a este setor para que este participa nas suas ações mas, também, que participe nas do setor reformista, recusando-se ao divisionismo e sectarismo. Algo que teremos oportunidade de ver no dia 25 de Julho, com a convocação da 2° Mobilização Nacional Antifascista, pela qual os convites foram enviados também a este setor. 

o movimento Antifascista nos próximos meses

O movimento antifascista sempre se mostrou aberto a colaborações com todas e quaisquer organizações e pessoas que defenda valores progressistas. Fora alguns grupos marginais e sectaristas que tendem a desaparecer com o tempo, todos os grupos estiveram envolvidos em várias lutas, lado a lado com os ativistas de outras pautas que constituem também a luta antifascista. Sejam estas lutas dirigidas pelo setor reformista ou não. O movimento antifascista expressou por várias ocasiões a sua vontade de unir as forças progressistas em torno da luta antifascista e de criar uma unidade de ação efetiva, na qual os sectarismos e divisionismos não são tolerados e na qual as divergências políticas são deixadas de lado para poder priorizar a luta contra o inimigo em comum das forças progressistas que representa a extrema-direita.

O objetivo nos próximos meses será sem dúvida de continuar a reforçar os contactos e colaborações que tem vindo a serem desenvolvidas nos últimos anos especialmente nos últimos meses, para garantir mais força e potencial para derrotar a extrema-direita e as suas organizações, e defender os valores democráticos e de liberdade que levam o movimento antifascista a assumir a cada dia que passa a primeira linha desta luta.

artigo de Jonathan Ferreira Da Costa

06.07.2020

Nota : Este artigo é uma analíse e uma tomada de posição individual, não podendo ser levado como posicionamento das organizações pelas quais milito.

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