a falta de habitação social no Porto

o estado e as instituições sociais não dão resposta

desde Março estamos em contacto com diferentes organizações e pessoas e acompanhamos as histórias de quem ficou sem emprego, sem rendimentos, de quem não tinha poupanças, de quem não consegue comprar comida, de quem não consegue pagar a renda.

no Porto existem pelas nossas contas mais de trezentas pessoas sem habitação, em Lisboa são mais de 2.400 segundo os números da câmara.

a falta de resposta por parte do estado e das câmaras ao longo dos anos deu origem a várias organizações não governamentais que trabalham diariamente para dar resposta às situações de emergência social.

quando contactada por algumas associações preocupadas em como agir durante o confinamento, a câmara do Porto incentivou que estas continuassem as suas ações. isto porque muitas IPSS deixaram de respostaIsto porque o restaurante solidário na batalha só voltou a abrir a 7 de junho… como se a fome também parasse com o vírus.

o 144, número de emergência social, não consegue dar resposta para os pedidos de apoio que chegam.

entre as cinco organizações que estamos em contacto no Porto, estão a alimentar mais de setecentas pessoas diariamente. 

mais de 300

pessoas

sem resposta

esta é a verdadeira linha da frente:

a reportagem em vídeo

sexta, 5 de junho de 2020, Porto

são 19:40, quando começo a subir a rua do Almada até à Rua de Gonçalo Cristóvão,

ia ter com a Hope mas primeiro, conheci a AMURT, chegaram antes e estavam a distribuir alguns kits. kits é o nome dado a sacos com águas, comida, alguma fruta, sandes, e outros alimentos que não precisem de ser cozinhados.

a AMURT começou na India em 1955, inicialmente focou-se na resposta a desastres e catástrofes, hoje estão presentes em mais de 100 países

a hope chegou um pouco depois, começou em Março em plena histeria covidesca.

Quando começou o movimento #ficaEmCasa a hope começou o movimento e quem não tem casa?

a organização cresceu rapidamente principalmente no instagram e no facebook, ao verem na rua a realidade e relatarem, gerou uma grande onda de solidariedade.

começaram por entregar seis dias por semana, e depois começaram os pedidos de familias, então entregam também a cada quinze dias cabazes em casas de famílias, que ficaram sem rendimentos, nem resposta do estado para comprar fraldas, água, álcool gel, máscaras.

a Hope conseguiu em dois meses criar uma estrutura de suporte  que chega neste momento a mais de 150 crianças e 300 adultos …

ao reportar as situações de emergência nas redes sociais, conseguiram apoiar e providenciar alojamento temporário a 6 pessoas durante algumas semanas, no momento em que não havia soluções. mais abaixo podem conhecer as histórias de algumas destas pessoas.

o ano passado com a reabertura do Pérola Negra, a câmara fez uma limpeza por baixo do viaduto.

agora, com o espaço encerrado e com o aumento do número de pessoas a ficar sem casa, o viaduto volta a encher-se de colchões improvisados, das pessoas  que o estado e a câmara esqueceram…

estarão já a planear voltar a varrer o problema para o lado?

atravessamos a rua de Santa Catarina antes de mais um banho na realidade

20:35:24 Praça da Batalha

uma organização que não estava à espera de encontrar foi os Super Dragões

em conversa contaram-me como chegaram até ali, no dia 18 de março reuniram-se para discutir como dar resposta á crise social que estavam a ver á sua volta.

decidiram utilizar a sua plataforma para providenciar 100 refeições, mas devido aos pedidos que aumentavam, chegaram a servir 300 refeições por dia. conseguiram construir esta estrutura de forma rápida com doações de membros, e da comunidade, bem como instituições como o banco alimentar.

nas últimas duas semanas, com o regresso de outras instituições ao terreno começaram a reduzir o número de dias de distribuição.

na batalha a comida não chegou para tantas pessoas…

felizmente era sexta-feira, e por volta das 22 horas a AHUESB iria também distribuir comida. as diferentes organizações tentam entre si organizar esforços. 

é crucial o trabalho que estas organizações fazem, para garantir a resposta, é essencial que hajam diferentes organizações, que possam aprender umas com as outras, completar-se, fica claro nas conversas que tivemos com todos a vontade de dar resposta aos problemas a curto prazo, e também de pensar, debater, e criar soluções para resolver os problemas estruturais como a habitação, a fome e a pobreza.

tantas histórias que esta praça tem…

em janeiro de 2019 quando as temperatura mínimas no porto desceram até aos zero, a câmara do porto, retirou das ruas da batalha, colchões que tinham sido providenciados por uma associação.

esta é a realidade  (videos) :

Um casal à deriva na cidade do Porto

A mulher veio mais cedo para Portugal para tomar conta de um idoso. Durou pouco. O Idoso foi para um lar e a senhora ficou a dormir na rua. O marido veio a pé de Espanha para apoiá-la. As 23h da noite voltamos à rua para um caso urgente. Não podíamos virar as costas e por isso colocamos-los de quarentena num hostel. O valor são 10 euros por noite. Acreditamos na solidariedade da parte de todos. Este casal só quer voltar para os Açores porque lá têm família para os apoiar. A rua não é para ninguém, nunca devia ter sido. A rua é para pisarmos a calçada e não para tropeçarmos entre cobertores, frio, fome e desespero.

“ Pedro” e os pedidos intermináveis de ajuda

O “Pedro” foi dispensado de uma obra com a promessa de receber o ordenado na segunda-feira. Às 21h recebemos o pedido de ajuda de um homem que nunca tinha passado a noite na rua. Ligou para o 144, informaram-lhe que não tinham capacidade de resposta, instituições fechadas, Hospital Joaquim Urbano em ocupação completa. Numa hora a Hope tinha o “Pedro” num hostel e com alimentação garantida. Pior do que o covid-19 é esta calamidade social que leva as pessoas ao desespero. Era óbvio que estas situações e outras que temos conhecimento iam acontecer, é inaceitável não tomarem medidas de urgência e deixarem pessoas a deambular pelas noites do Porto durante dias seguidos.

22:15:43 – praça da batalha

depois de jantar fui dar uma volta pela batalha, encontrei a AHUESBsão da Trofa e de outros sítios, talvez oito voluntários, trazem uma carrinha grande, montam uma mesa, ficaram cerca de uma hora. à volta da mesa estão avós com os seus netos, primos, desconhecidos.

entre conversas aprece o Joel, destaca-se dos outros pelo seu carisma, transpira empatia, sempre preocupado com os outros. Contaram-me mais tarde que ele tinha pedido à algum tempo umas sapatilhas, quando finalmente lhe arranjaram umas, ele não ficou um dia com elas, ofereceu-as a outro que precisava mais …

após servirem a comida ficam todos de conversa,

alguns riem, à gargalhada.

neste momento está tudo bem ! há café, há bolo, maçã cozida…

 

depois os carros fecham as portas e vão embora e fica tudo escuro e um silêncio devorador.

a AHUESB foi fundada em 2016, tem activa desde o início a Missão Francisco de Assis, desenvolvem uma acção humanitária de auxílio a pessoas sem habitção no Porto (Mercado do Bom Sucesso, Cristóvão, Hospital de Santo António e Praça da Batalha) e em Braga.

a AHUESB está todas as sextas-feiras a distribuir refeições e kits. Para além disso também distribuem roupa, móveis. O dia para eles começa ás cindo da manhã, durante a semana levantam as necessidades, e no próprio dia recolhem comida e preparam refeições e kits. 

a AHUESB faz também doações de móveis, roupa, e eletrodoméstico, mais informação na  página.

vieram agora do Bom Sucesso e trouxeram este postal:

mais de setenta pessoas, a somar ás trinta em Gonçalo Cristóvão, cinquenta na batalha …

275 € reforma 225€ em habitação, façam as contas

Porto, sábado 17:40

parei na cordoaria para fumar. vem me pedir tabaco um senhor,  “não incomoda nada” digo.

tem 65 anos, é reformado, seropositivo, recebe 275 € mês por parte do estado. pergunto-lhe já anestesiado para esta realidade horrível se dorme na rua…

responde-me que aluga um quarto por 225 € ali perto.

faço as contas de cabeça antes que ele complete a frase: “sobram-me 50€ mês para produtos de higiene, roupa, comida, qualquer coisa que seja necessário.

o meu cérebro desligou no inicio da frase, nos 50 por mês.

sou invadido pelos comentários dos bots do chega no twitter, que dizem que as pessoas não querem trabalhar…. sou confrontando com uma realidade a qual não consigo compreender nem aceitar.

fico sem sangue nas veias, pálido, suspiro: “sabe que existem várias associações a fazer distribuição de comida …”. 

a 8 de junho no início da pandemia a sabercompreender emitiu um comunicado em que alertava para o facto de não terem condições para continuar o seu trabalho.

“… No entanto, e devido ao prolongamento do estado de emergência e ao aumento do número de pessoas na rua, decidimos reactivar as saídas reforçando as respostas em curso.  Para isso, a Saber Compreender conta com um conjunto de recursos e de sinergias locais…”

começaram em 2015, o Christian que preside a associação esteve sem casa, a viver na rua, foi numa dessas noites que surgiu a saber compreender, na empatia entre duas pessoas. 

hoje o grupo é diversificado, alguns psicólogos juntaram-se ao grupo e trazem novos conhecimentos e práticas na ação de rua. a equipa reúne iniciativas e soluções e para além do trabalho nas ruas assumem a postura de propor soluções aos diferentes problemas que o estado câmara e outras instituições enfrentam.

o Coração na Rua  não saiu das Ruas nem nos piores momentos, Rua Escura e Cerco do Porto contaram sempre com eles. Os restantes voluntários voltaram agora ás outras ruas, durante esse tempo as doações foram canalizadas para a Porta Solidária. 

Agora com as equipas do Coração na Rua no terreno em 6 pontos da cidade , estão a servir cerca de 300 refeições completas, máscaras , kits do dia seguinte e de higiene.

 

no marquês, estavam a ser servidas 150 refeições antes do confinamento,

hoje são mais de 400 por dia.

os números estão a crescer,

todas as organizações são unânimes em concordar que esta crise é muito mais forte que a de 2008.

e as pessoas que trabalhavam a 2€ / hora ?

Fontaínhas, Porto, sábado 15:40

mais abaixo encontro o … ,

trabalhava num restaurante na ribeira, os patrões sabiam que estava sem habitação e pagavam-lhe 2 euros por hora.

não tem direito a subsídio de desemprego, nem qualquer apoio…

podem ouvir um excerto 

nas kitchenetes da nova pasteleira

 continuam a faltar móveis, as pessoas que receberam habitações, por sorteio, receberam agora alguns móveis, também por sorteio. uns ficaram com um móvel para a cozinha, outros com uma estante para a sala, alguns com uma cama…

as ligações de gás por exemplo não estavam feitas, 

entretanto ontem foi feita mais uma rusga policial, as prioridades de investimento das nossas instituições são claras.

não há emprego …

não há necessidades básicas …

não existe acesso de oportunidades a todos.

chega-nos o relato de pessoas que saíram da prisão e estão a dormir na rua, pode ser duro de ouvir isto, mas já ouve quem tenha dito estar a pensar cometer algum crime para voltar.

o sistema, sistematicamente, falha.

falha primeiro em identificar os problemas.

depois falha ao criar soluções como o Porto sem sentido financiando os vampiros do Alojamento Local, em vez de utilizar o dinheiro para resolver os problemas reais.

em maio de 2020 o número de vistos golds praticamente triplicou a comparar com o ano passado, o resultado é a estagnação da habitação social,  o resultado é despejos ilegais, bastonadas na cabeça, gás lacrimogéneo, agressões a jornalistas.

talvez seja negligência, talvez incompetência, mas estas instituições estão à demasiado tempo a cometer os mesmos erros.  

o direito à habitação

 

artigo 65 da constituição portuguesa

todos têm direito para si e para a sua família a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.

somos todxs ativistas

todos defendemos causas, 

tentamos construir no nosso cérebro uma ideia do que é o mundo,

do que não gostamos, do que queremos diferentes,

temos de ser capazes de questionar todos os dias as causas que defendemos,

a apatia trouxe-nos até aqui

é mais fácil agora perceber que não existe saúde individual se não existir saúde coletiva, e que só seremos saudáveis se os outros o forem também.

não existe bem estar individual sem bem estar coletivo

o covid provou que somos capazes de fazer alterações drásticas nas nossas vidas.

e mostrou-nos o que é importante, o contacto com outros, dormir numa casa, ter comida, passear na rua, viajar, a familia, os amigos.

o covid mostrou que nos conseguimos unir em torno de causas.

que precisamos uns dos outros.

O covid mostrou que o capitalismo não funciona, mostrou que a desconexão das pessoas com o estado mata, chegou a altura, que arda este sistema, que caiam as estátuas.

estão a surgir movimentos muito interessantes, a luta acontece em várias frentes, uma guerra que dura há anos, entre os que se preocupam apenas com o seu próprio umbigo, e os que entendem que conseguimos algo mais que acumular poder.

a hipocrisia tem os dias contados.  

Queremos crescer em ideias. No discord reunimos ativistas, debatemos os problemas fraturantes da nossa sociedade, e pensamos em conjunto soluções,  criam-se acções, campanhas e estratégias para mudar.

criamos uma conta no patreon, que para quem não conhece é uma espécie de paypal para artistas, e freelancers, ongs, receberem doações. em troca deviamos dar conteúdos exclusivos mas nós não damos ! aqui quem paga tem os mesmos direitos que quem não paga, não acreditamos em conteúdos exclusivos só para os ricos. acreditamos que a informação é um direito básico.

Queremos criar uma associação e aumentar a nossa capacidade e impacto, se puderes contribuir, o valor mínimo é de 3 eur, sendo que as subscrições são mensais, mas podes cancelar a qualquer momento e não te será cobrado o próximo mês.

a nossa secção de ativismo está a crescer

continuam a persistir comportamentos que não se enquadram com o século no qual vivemos.

temos mais informação do que nunca,

mais recursos do que nunca,

comida.

a distribuição está a falhar …

o ativismo está a ganhar

apoia a linha da frente em Lisboa :

resgatar o futuro, não o lucro nem o racismo

estivemos na rua no Porto a acompahar os movimentos, foi incrivel ver tantxs jovens na rua, a lutar pelo seu futuro. o ativismo está a crescer !

racistas, facistas, não passaram !

nem este capitalismo, não funciona, não nos serve.

precisamos de algum tipo de socialismo, precisamos de algum tipo de comunismo (não como na china…esta semana vamos lançar um ou dois artigos sobre essa ditadura).

a desconexão das pessoas com o governo

A democracia é vista como a forma de governar que melhor serve as pessoas e mais contribui para o progresso da sociedade. Embora a democracia apresente claras vantagens em relação a outros sistemas que se provaram destruidores para a sociedade, para a democracia funcionar é necessário uma conjunção de fatores: um processo de eleição transparente, cidadãos bem informados, com pensamento crítico desenvolvido e constantemente estimulado.

a guerra de classes continua …

segunda-feira ficámos com um nó no estômago.

após ter sido avisada pela psp que apenas podia haver despejo com ordem judicial, uma empresa contratou outra empresa que contratou 18 homens, para irem armados quebrar a lei, tudo isto com a policia a cooperar, e os governantes calados

no vídeo fica claro um agente policial a mandar uma bastonada numa pessoa que estava a tentar sair do local. Esta pessoa não estava em direção á policia, mas sim a afastar-se. Isto é violência gratuita, isto é crime.

No sábado, a advogada dos proprietários foi ao local onde dois agentes da polícia informaram que sem ordem do tribunal não poderia acontecer um despejo, é a lei.

Segunda de manhã foi chamada ao local por um membro da Seara quando os seguranças se recusaram a sair do prédio. Aparentemente entre sábado e segunda, a polícia esqueceu-se da lei. 

as leis que foram quebradas :

3 – O despejo de habitação permanente não se pode realizar no período noturno, salvo em caso de emergência, nomeadamente incêndio, risco de calamidade ou situação de ruína iminente, casos em que deve ser proporcionado apoio habitacional de emergência.

4 – O Estado, as regiões autónomas e as autarquias locais não podem promover o despejo administrativo de indivíduos ou famílias vulneráveis sem garantir previamente soluções de realojamento, nos termos definidos na lei, sem prejuízo do número seguinte.

5 – Em caso de ocupação ilegal de habitações públicas, o despejo obedece a regras procedimentais estabelecidas por lei.

6 – Sempre que estejam reunidas as condições para o procedimento previsto no n.º 1, são garantidos pelo Estado, nomeadamente:

a) Desde o início e até ao termo de qualquer tipo de procedimento de despejo, independentemente da sua natureza e motivação, a existência de serviços informativos, de meios de ação e de apoio judiciário;

b) A obrigação de serem consultadas as partes afetadas no sentido de encontrar soluções alternativas ao despejo;

c) O estabelecimento de um período de pré-aviso razoável relativamente à data do despejo; 

e agora? lê a última edição do Microscópio

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